Por Sergio Resende | Trê Investindo com Causa
NaturaSi não estava inicialmente no plano de viagem. Nem sabia de sua existência. Surgiu num café da manhã em Sekem com Ueli Hurter, um dos fundadores de L’Aubier e responsável pela seção de agricultura biodinâmica no Goetheanum, que conheci lá “por acaso”.
- Ueli Hurter: Se você está interessado na cadeia de alimentos saudáveis e vai para a Itália, deveria conhecer NaturaSi, eles são muito consistentes no que fazem.
- Sergio: É mesmo? E como faço para entrar em contato e visitar?
- Ueli Hurter: Ilaria, que organiza as viagens de turismo para fazendas biodinâmicas na Itália, sócia da Viandantisi, trabalha para eles e está por aqui também. Fale com ela.
Consegui falar com Ilaria na última sexta em Sekem e domingo de madrugada estava voando do Cairo para Veneza. De lá, com um carro alugado, segui em direção à sede da NaturaSi, em San Vendiamo, no norte da Itália, para uma primeira conversa às 15:00 hs com Fábio Brescacin, um dos pioneiros e um dos três atuais CEOs de NaturaSi, que gentilmente abriu o escritório para me receber, muito informalmente, sem saber praticamente nada sobre mim.

Fábio me introduziu na história da empresa e na estrutura macro, que envolve três áreas: o negócio, a agricultura e a educação. Nas duas horas que conversamos, fui compreendendo seu olhar que abarca as fortalezas e fragilidades da cadeia de alimentos, o desenvolvimento humano e a sustentabilidade ambiental. Havia ali muita experiência acumulada e muita coisa realizada em torno de um grande sonho.
Recebi um exemplar do relatório de impacto de 2023 da empresa, no qual se apresentam como ecossistema EcorNaturaSi, composto por 250 empresas agrícolas, 320 lojas, 1200 funcionários e cerca de 700 mil consumidores – esta descrição é importante para entender a essência do que fazem. Não se trata apenas de um varejo, mas uma potente rede que abrange os produtores de alimentos, os processadores, o atacado, o varejo e os consumidores, buscando atuar de uma forma na qual cada um dos integrantes se perceba um indivíduo interdependente e mutuamente se suportando.

Foto de uma das primeiras páginas do relatório de impacto de 2023: “Salutar só é quando no espelho da alma humana se forma a comunidade inteira e na comunidade vive a força da alma individual”. Rudolf Steiner
Na segunda-feira cedinho peguei uma hora de estrada para visitar San Michele, uma das quatro fazendas do grupo. O céu estava cinzento, o que deixou o cenário um tanto monótono com os vinhedos em processo de poda e preparação para a próxima safra.

Fábio tinha me contado que a maioria das terras no entorno estavam dedicadas à produção convencional (não orgânica ou biodinâmica) de prosecco – responsável por todo o desmatamento feito e o impacto ambiental causado na região nos últimos anos.


Minha visita a San Michele tinha sido arranjada de última hora por Fábio. Anitto Bonadio, fundador e gestor da fazenda, teve uns poucos e preciosos minutos para mim. Vou tentar resgatar o que ouvi em italiano daquele homem com brilho nos olhos e fala do coração, por meio de Sara que fez a tradução para o inglês:
“Uma fazenda biodinâmica não pode ser vista como um negócio qualquer a competir no mercado. Não é somente sobre produzir vegetais. É sobre cuidar do solo, da natureza e da alimentação das pessoas. É muito mais trabalho e isto tem um preço. Uma produção biodinâmica deveria ser suportada por uma comunidade. O agricultor é como um professor, que precisa ser suportado para educar as crianças da melhor forma. O consumidor precisa entender isto”, relata Anitto Bonadio.
Segui com Sara, uma jovem por volta dos 35 anos, para uma visita às instalações da fazenda. No caminho me divido entre ouvir suas explicações sobre a produção de frutas, mel, cereais, legumes, verduras e derivados de leite, e explorar a sua conexão com os princípios da fazenda. Ela chegou sem muitas expectativas num evento, há 5 anos, e foi descobrindo aos poucos que havia uma filosofia por trás. Agora, ela é uma representante da nova geração que quer fazer uma agricultura saudável para as pessoas e para o planeta.

Fiquei feliz de ver, uma pessoa que saiu da cidade para o campo, falando com entusiasmo. Tenho me perguntado sobre quem vai produzir comida no futuro, se a maioria dos jovens estiver sonhando com trabalhar com IA, fazer aplicativos, ou criar e vender sua startup, para depois gastar o dinheiro viajando.
Gianluca, diretor de ESG, que me recebeu à tarde, contou que há 40 anos atrás, um médico visionário, Gabrielle Naville, reuniu um grupo de pessoas para comprar uma fazenda e abrir, em Conegliano, na Itália, uma pequena loja para comercializar produtos orgânicos locais cultivados com total respeito à terra, à natureza, ao meio ambiente e, portanto, ao homem. Um projeto utópico para a época. Bom lembrar que o fundador de Sekem, Ibrahim Aboulish, era farmacêutico e tinha sido desmotivado pelos seus amigos a se meter com agricultura. Ainda bem que essas pessoas escutam seus amigos e depois seguem seus sonhos.
Gianluca também me explica que o desastre de Chernobyl em 1986 provocou uma grande preocupação dos consumidores com a contaminação do solo e de alimentos, o que estimulou a produção e distribuição de alimentos orgânicos e de fontes confiáveis na Europa.
Uma rede de lojas começou a se formar e, em 1998, quatro empresas se uniram para formar a Ecor, um atacado para suprir as lojas. Esta foi uma peça chave para a expansão da rede. Hoje, a Ecor é a maior distribuidora de produtos orgânicos da Itália e a NaturaSi a maior rede de varejo de produtos orgânicos.

Nos quatro dias que estive na região visitei três lojas das atuais 360 (aproximadamente 160 próprias e 200 franqueadas). Uma loja pequena tem aproximadamente 100m2 e uma grande 800m2. São 4.500 itens (1.700 marcas próprias) entre produtos alimentícios frescos e embalados, produtos fitoterápicos, de higiene pessoal e para casa. Tudo orgânico ou biodinâmico. Um sonho, mesmo para mim, que não sou de loja nem de compras!

Faltou contar aqui sobre a “Libera Fondazione”. Os fundadores resolveram criar uma estrutura de “steward ownership”, assim como Bosch, Zeiss, Novo Nordisk e Sekem, como já citei no texto anterior, na qual uma fundação detém o controle dos negócios. Os objetivos da fundação estão explicados neste trecho do site:
“A Fundação tem três objetivos: o primeiro é manter a missão da EcorNaturaSi ao longo do tempo. A segunda é identificar as melhores pessoas para o futuro da empresa com liberdade, sem laços de parentesco. A terceira é alocar os dividendos das atividades econômicas da Fundação (principalmente a EcorNaturaSi) para outras iniciativas que se enquadrem nos ideais fundadores. Para dar dois exemplos, a fundação comprou a fazenda biodinâmica San Michele, na província de Veneza, uma fazenda modelo para agricultores em nosso ecossistema. Além disso, construímos a escola Waldorf gratuita, “Novalis”, na província de Treviso, um complexo escolar que acolhe alunos desde a educação infantil até a conclusão do ensino médio e que hoje é o primeiro na Itália a emitir um diploma em agricultura biodinâmica orgânica”.
Gianluca havia me dado uma aula na segunda-feira sobre o modelo de negócios da EcorNaturaSi e os princípios que fundamentaram as escolhas, como a visão da trimembração social na construção do canal de venda, então pedi um segundo tempo na terça-feira.
Marcamos na sede da Escola Waldorf Novalis, para a qual o Fábio também agendou uma visita para mim. A escola é muito bonita e tem uma proposta semi-profissionalizante para ensino médio que ainda não tinha visto em escolas Waldorf.

Voltemos à segunda conversa com Gianluca e a um ponto importante que já apareceu com Fábio e com Anitto. Qual o preço verdadeiro de um alimento biodinâmico? Como calcular considerando não só que ele não deixa impactos negativos com o uso de produtos químicos, mas também causa um impacto positivo no meio ambiente e entrega um alimento com maior nível de vitalidade e que, consequentemente, afeta positivamente a saúde das pessoas?
Em vários lugares estão sendo feitas experiências e pesquisas sobre as diferenças entre a agricultura convencional, orgânica e Biodinâmica. Aprendi em Sekem a sigla para isto: DOK (Biodinâmica, Orgânica e Convencional). Se quiser saber mais sobre DOK, pode perguntar ao ChatGPT, que irá mostrar algumas informações sobre a Suíça, que já faz esta pesquisa desde 1978. Nem comentei nos textos anteriores que, em SEKEM, iniciaram também uma pesquisa com a saúde das pessoas se alimentando com biodinâmicos na fazenda Wahat.
Não preciso desfilar um arrazoado para convencer que, em geral, nós das cidades, estamos muito desconectados da natureza e de como os alimentos são produzidos. A NaturaSi faz um esforço para criar uma comunidade de consumidores que se conecta com o produtor e compreende os benefícios de uma produção orgânica e biodinâmica. Não é uma tarefa fácil e sempre estão buscando alternativas. Uma das ações são as viagens organizadas pela Ilaria, conforme comentei acima e que pode ser melhor entendida no site da Viandantisi. Na semana que os visitei estava para sair uma nova campanha: Prezzo transparente. Uma tentativa de ajudar o consumidor a ver a cadeia de alimentos como um todo.


Fábio me recebeu novamente para um café de fechamento da visita.
- Sergio: Fábio qual é a essência do que vocês estão fazendo?
- Fábio: São basicamente três coisas:
1. Uma clara missão com base espiritual, na qual se fortalece o “Eu”, o correto uso do dinheiro e a melhor comida para as pessoas.
2. A construção de comunidade, na qual se cuida das pessoas, dos relacionamentos, na qual trabalham seres humanos com seres humanos. A cadeia de suprimento de alimentos é uma parte disto.
3. Quando você está no mundo da economia, tem que ser profissional, especialização com a máxima eficiência que se pode. Não estamos trabalhando para nós mesmos. Trabalhamos para os outros. Isto nos dá poder e motivação.
- Sergio: O que você faria diferente, se fosse começar novamente?
- Fábio: Eu não sei. É um milagre. Nós somos uma semente. E trabalhamos para a dimensão espiritual. E se você trabalha desse jeito, ganha confiança.
- Sergio: O que você recomenda para quem ainda quer começar?
- Fábio: Não faça o que você “pensa” fazer. Entenda o que está acontecendo, a necessidade da situação. Pergunte o que essa situação pede de mim. A missão irá penetrar em você.
Tiramos uma foto juntos, ele saiu apressado para um compromisso e eu fiquei mais um pouco com meu café, com minhas anotações, milhares de pensamentos e com um calorzinho no coração.

O restante do meu último dia foi de passeio pela região com Renzo e Gianna. Não deu para contar aqui sobre eles, teria que escrever outro texto. São os pais de Ilaria. Imagine que me receberam estes dias em sua casa. Aprendi como se poda uma videira, comemos “gnocchi fatti a mano” e brindamos uma nova amizade com prosecco. Grazie mille!

Renzo/Gianna: Qual o seu próximo passo Sergio?
Sergio: Irei visitar Damanhur
Renzo/Gianna: Por que?
Sergio: É uma comunidade que sobrevive há quase 50 anos. Deve haver algo a aprender lá, talvez até um segredo!
Renzo/Gianna: Você sabe que eles mudam seus nomes por nomes de animais?
Próxima parada: Damanhur. Aguardem.
Até já,
Sergio Resende.
Sergio Resende é cofundador da Thyme - Evolução Cultural, na qual atua como consultor de cultura organizacional e coach de executivos. É também cofundador e diretor da Trê Investindo com Causa. Há 25 anos, dedica-se a entender o ser humano em seu contexto de trabalho e a promover o desenvolvimento de indivíduos livres e organizações saudáveis. Nos primeiros meses de 2025, Sergio embarca em uma Jornada de Pesquisa internacional, em busca de inspirações para o futuro de nossa sociedade e a construção de uma Nova Economia.
Acompanhe o Sergio nessa viagem na seção Jornadas do blog da Trê.