Por Beatriz Girão | Trê Investindo com Causa
Um sonho que nasce da terra e retorna a ela. Assim é a história da Várzea Composta, um negócio de impacto que há mais de dois anos transforma resíduos orgânicos em vida, no bairro da Várzea, em Recife (PE). Uma jornada de propósito que revela uma verdade nem sempre dita: negócios de impacto são necessários, poderosos e transformadores, mas ainda enfrentam um caminho árduo para prosperar em uma economia que precisa aprender a valorizá-los.

Raízes que se encontram
A Várzea Composta nasceu em 2023, dentro do programa Territórios Regenerativos Mata da Várzea, uma iniciativa do Parsifal21 com a Trê, em parceria com o Grupo Cornélio Brennand. O projeto buscava formar grupos de geração de renda voltados à vocação econômica dos territórios. No bairro da Várzea, um curso de Agricultura Urbana reuniu pessoas com o desejo comum de transformar o território e reacendeu uma vocação que estava adormecida.
“Durante o curso a gente teve três grupos: os fitoterápicos, os de alimentação e surgiu o Várzea Composta. Apresentamos a proposta de trabalhar com compostagem e geração de renda através desse trabalho”, conta Taís Camila Silva, bióloga de formação e responsável pelo marketing e gestão do negócio.
Onze pessoas abraçaram o projeto inicial. Com o capital semente recebido em 2024, o grupo deu os primeiros passos na missão de coletar resíduos orgânicos e transformá-los em adubo de qualidade. Mas a caminhada revelou-se mais desafiadora do que o esperado.
“No começo não foi fácil porque compostagem é uma coisa nova e trazer essa compostagem com a geração de renda ainda era tudo muito novo e tem muitos desafios até hoje“, reflete Taís.
Quando o capital semente se esgotou, ficaram os que verdadeiramente queriam. Hoje, cinco sócios mantêm o negócio vivo se dividindo entre as funções de administrativo, coleta, gestão financeira e manejo: Taís, Bruno, Rodrigo, Dornillo e Vinícius. “A gente foi um grupo que cumpriu com todas as etapas”, afirma Taís.

O trabalho invisível que nutre a terra
“O lixo jogado fora é pra ser invisível, é para a pessoa que produz aquilo não ver para onde esse lixo vai, então quem trabalha com lixo e transforma o que é descartado, é mais invisível ainda“, explica Taís, tocando em um ponto sensível: o trabalho essencial da compostagem permanece despercebido.
Para tornar esse processo visível e mostrar a importância da regeneração, o processo da Várzea Composta começa com a conscientização. A equipe visita estabelecimentos, explica a importância de cuidar do lixo orgânico e, dependendo do caminhar da conversa, deixa bombonas de 50 litros nos restaurantes e baldes com sacos biodegradáveis nas residências.
Duas vezes por semana, Rodrigo faz a coleta nos dois clientes principais: o Piva’s, um restaurante e casa de show que fornece de quatro a oito bombonas semanais, e a Vida Bela, o primeiro cliente, que permanece com o negócio até hoje.
Depois da coleta, o material é levado até a Coudelaria Souza Leão, um espaço cedido para viabilizar a prototipagem da operação e do processo da compostagem. , Houve muitos aprendizados, um deles, percebeu-se que a logística não é simples, como conta Tais: “Não é uma avenida plana, são curvas para chegar na Coudelaria”.
Lá, acontece o manejo semanal em que os resíduos são organizados em leiras, seguindo o processo de lasanha: camadas alternadas de resíduo orgânico e material seco. As leiras são alimentadas até ficarem cheias e então “dormem” por cerca de 120 dias, tempo em que a biologia, a química e os microrganismos fazem a transformação do resíduo orgânico em adubo.
“O lugar é muito bonito. É o que move. Sinto que estamos fazendo algo pelo planeta. Aquele lixo, aquela coisa, nisso que vem cheio de mosca, nem sinto mais o cheiro. De repente se transforma em uma coisa mais linda que volta à terra. E com aquela terra você pode plantar“, compartilha Taís, revelando a poesia que existe no trabalho diário.
O resultado é um adubo de qualidade, vendido em dois tipos: o mais grosso, considerado o melhor por preservar todos os nutrientes, e o mais fino, peneirado múltiplas vezes. A comercialização acontece em feiras, pelas redes sociais ou diretamente com clientes que buscam a equipe. Além dos clientes fixos, a Várzea Composta também atua em eventos, cuidando da gestão de resíduos orgânicos.

Propósito exige resiliência
“Seguimos trabalhando praticamente por amor, porque ainda acreditamos. O momento que estamos na Várzea é de resiliência“, conta Taís, expondo a realidade crua de muitos negócios de impacto.
Os desafios para ir para um estágio de aceleração, como em todo empreendimento, são múltiplos e profundos. A Várzea Composta está em fase de formalização para poder fechar contratos com eventos que exigem CNPJ. Outro desafio é gerar recursos para adquirir carro próprio, o que possibilitaria expandir para outros bairros além do da Várzea. E não é por falta de demanda e sim por falta de recurso.
Em Recife outras empresas de compostagem fecharam, deixando clientes sem opção: “Se tivéssemos um veículo, com certeza estaríamos dominando Recife“.
O transporte é provisório: Rodrigo usa o carro emprestado do irmão, que pode ser solicitado de volta a qualquer momento. O dinheiro arrecadado dos restaurantes e residenciais é guardado para pagar o frete e emergências, o que deixa o caixa apertado para quem está com a frente do trabalho. Inicia-se a fase de amadurecimento da gestão do empreendimento para aproveitar melhor as oportunidades que existem
“Para você convencer um cliente de fazer compostagem você tem que dançar muito forró”, resume Taís ao contar das tentativas de apoio institucional que não deram frutos.
“Esse foi o financeiro, foi essa remuneração, foi esse reconhecimento“, resume a frustração de quem trabalha com excelência, mas não consegue transformar impacto em sustentabilidade. “Humanamente dá uma desanimada”, admite Taís.
Houve momentos de querer fechar, outubro de 2025 foi particularmente difícil, quando o motorista saiu e parecia impossível continuar. Foi Charles Monteiro, mentor do programa, quem ajudou Taís a escrever e-mails em busca de apoio, oferecendo o suporte que faltava.

Excelência que resiste à escassez
Em muitos negócios, quando o financiamento acaba, a qualidade do trabalho declina. Com a Várzea Composta, aconteceu o contrário. Mesmo sem recursos e trabalhando praticamente como voluntários, a equipe seguiu estudando, aperfeiçoando técnicas e aprofundando conhecimentos sobre compostagem.
Desde o início, eles sabiam o que faziam e faziam bem. Hoje, fazem ainda melhor. O domínio técnico se aprimorou, os processos se refinaram, o cuidado com cada etapa se intensificou. A equipe domina cada detalhe do manejo, conhece profundamente a biologia do processo, entende as nuances de temperatura, umidade e tempo que transforma resíduo em adubo de qualidade.
O que não acompanhou essa evolução foi a gestão financeira. A Várzea Composta cresceu em competência técnica, maturidade da equipe, capacidade de impacto, mas continua lutando para sobreviver. É um paradoxo cruel: quanto melhor ficam no que fazem, mais evidente se torna a necessidade de gestão como empreendimento para conseguirem se sustentar com esse trabalho essencial.
Sonhos que florescem mesmo no chão árido
Apesar das dificuldades, a Várzea Composta já plantou sementes importantes na vida de quem a construiu. Para Taís, o negócio realizou sonhos pessoais que pareciam distantes.
“Através da Várzea, no lado pessoal, eu realizei muitos sonhos. O primeiro sonho foi viajar de avião, nunca tinha viajado de avião e fui para São Paulo para falar da Várzea no Impacta Mais. Para mim aquilo… eu fui tratada com uma rainha“, conta Taís, com a emoção de quem teve seu trabalho reconhecido e valorizado.
O negócio também permitiu que ela voltasse a atuar na área que escolheu: “Sou bióloga de formação, então voltar para essa área, uma área que quando eu comecei a minha graduação era pequena e hoje está crescendo”.
A formação de Taís vai além, ela está aplicando para o mestrado com um projeto sobre compostagem: “Foi devido ao projeto, se não nada disso teria acontecido. No meu lado pessoal e profissional, sigo aprendendo. Estar na coordenação, na gestão de uma empresa, uma empresa de sustentabilidade, de economia circular”.
Os cinco que permaneceram se tornaram família: “Aprendemos a forma de como falar com o outro e nos apoiamos sempre”.
O que move quem transforma
“Eu sempre brinco muito com o Bruno que o que fazemos, meu Deus é tanto estresse, mas quando chegamos lá na Coudelaria, tudo se transforma. É muito bonito o lugar, é o que move“, diz Taís.
O que mantém a Várzea Composta viva não é apenas a viabilidade econômica (que está em processo de construção) mas a certeza do propósito visando as gerações futuras, como conta Taís:
“A importância da Várzea Composta é que o mundo ainda tem esperança, né? O meio ambiente tem esperança de ter um solo saudável. Eu vejo meu filho e penso nas crianças, no futuro que eles devem ter uma visão consciente. Uma minhoquinha, qual a importância desse bicho? Uma coisa tão simples, mas tem consciência: Não vou matar aquele bicho, aquele bicho, ele é fundamental”.
O futuro precisa sentir o solo nas mãos
Para o futuro, Taís tem desejos claros em relação a Várzea Composta: “Eu queria que a gente tivesse um caixa legal e que não ficasse preocupado, que tivéssemos um salário digno, até para dar mais um vigor de fazer o trabalho. Porque é trabalho“.
Ela sonha com reconhecimento, com logística estruturada, com a possibilidade de expandir para outros bairros e de ensinar outras comunidades a fazer compostagem: “Gostaria que a Várzea fosse conhecida no Recife, em Pernambuco, que os órgãos públicos dessem mais atenção, que vissem como é a compostagem é importante e, até crescer para o Brasil, porque não, né?”.
Um chamado à uma Nova Economia
A história da Várzea Composta é também um espelho para a economia como um todo. O negócio cumpre um serviço público essencial: reduz resíduos que iriam para aterros, produz adubo orgânico de qualidade, gera consciência ambiental e alimenta a terra. Faz tudo isso com excelência, com amor, com conhecimento técnico e dedicação absoluta.
E ainda assim, luta para evoluir e mudar seu estágio de maturidade como negócio.
“A gente é uma equipe que tem muito amor pelo que faz. Conhecemos muito cada detalhe do trabalho. A compostagem já está crescendo e o mundo precisa da compostagem”, afirma Taís.
Negócios de impacto como a Várzea Composta não são apenas bonitos na teoria. São necessários, transformadores e viáveis. Mas para que continuem existindo, é preciso que a economia aprenda a valorizar quem faz o trabalho invisível de cuidar do resíduo e da terra, de transformar o descarte em vida, de construir um futuro mais sustentável para todos.
O propósito da Trê encontra na Várzea Composta um exemplo vivo de que ainda há muito a ser construído. Que o dinheiro precisa chegar onde o impacto já está sendo gerado – acompanhado do fortalecimento da gestão e do amadurecimento do negócio. Que reconhecimento é importante, mas precisa caminhar junto com sustentabilidade financeira e capacidade empreendedora. Que negócios como este não apenas precisam de investimento, mas de instrumentos, apoio estratégico e condições para crescer com autonomia.
“No começo pensamos que era fácil, mas quando a gente foi meter o pé, viu que não é, mas também não é impossível, né?“, reflete Taís.
A Várzea Composta segue, resiste, transforma e convida a Economia, o poder público, investidores e a sociedade a verem o que está “invisível” e estenderem as mãos para que quem cuida da terra possa, finalmente, colher os frutos de seu trabalho.

O Papel do Programa Territórios Regenerativos
O Programa Territórios Regenerativos é uma colaboração entre a Trê e o Parsifal21 que reúne esforços para promover uma agenda de empreendedorismo de impacto e prosperidade local em diferentes territórios do Brasil. Sua missão é co-criar uma Nova Economia que reconhece ser humano e natureza como dimensões indissociáveis.
Com o apoio estratégico do Grupo Cornélio Brennand, o programa atua na Mata da Várzea, em Recife (PE), com o propósito de fomentar uma economia a serviço das pessoas e do planeta, direcionando o fluxo de capital para fortalecer o ecossistema empreendedor e gerar impacto socioambiental e desenvolvimento local.
Multiplique a transformação da Várzea Composta
A Várzea Composta precisa de apoio, e não está sozinha. Existem muitos negócios como este, que transformam territórios, cuidam do meio ambiente e geram impacto real, mas lutam para amadurecer como modelo de negócio e conseguir a sustentabilidade financeira.
O programa Territórios Regenerativos Mata da Várzea, do Parsifal21 com a Trê, em parceria com o Grupo Cornélio Brennand e Sebrae/PE, e co realização Verda e Kapiwara mostra o poder do efeito multiplicador: em um único programa, fortalecemos diversos negócios juntos, construímos comunidades e criamos redes de apoio mútuo. Para aumentar o alcance, é preciso que mais investidores, doadores, CNPJs e CPFs acreditem nessa transformação.
Se você é uma empresa, um investidor ou uma pessoa que quer ver seu recurso gerar impacto real, convidamos você a conhecer a Trê e os programas que conectam capital a negócios que estão construindo um futuro mais justo e sustentável. Entre em contato conosco! Juntos, podemos multiplicar histórias como a da Várzea Composta.
E se você quiser acompanhar o trabalho da Várzea Composta, conhecer mais sobre compostagem e fortalecer essa iniciativa diretamente, siga o negócio nas redes sociais. Cada curtida, compartilhamento e cliente novo fortalece essa rede de transformação.
A Trê Investindo com Causaestrutura e coordena programas de financiamento e fortalecimento para negócios com causa em parceria com diversas organizações filantrópicas e privadas. A instituição já mobilizou mais de R$ 30 milhões e já beneficiou mais de 100 negócios de impacto positivo.
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Beatriz Girão
Time Trê de Marketing & Comunicação
